FORMAÇÃO



Tema: Escutismo e a Fé.



Elementos metodológicos.


Vou precorer os principais elementos pedagógicos do Escutismo no sentido de neles captar os principais elementos metodológicos capazes de actuar uma educação para a fé, nas suas componentes doutrinal, celebrativo e de compromisso na vida.

Esta análise parte de um princípio fundamental: o próprio método escutista oferece oportunidades de educação para a fé. Por isso, a dimensão da educação para a fé não surge como uma realidade «estranha» ao próprio escutismo, mas insere-se dentro da sua dinâmica, naquilo que, metodologicamente, lhe é mais próprio.

Vou me singir em 7 aspectos fundamentais e vou relaciona-los a fé cristã e com o criador que são:

1. A Lei e a Promessa;

2. Sistema de patrulhas;

3. Aprender fazendo;

4. A mística e simbologia;

5. Sistema de progresso;

6. Relação jovem – adulto;

7. A vida na natureza.


1. A Lei e a Promessa
A Lei do Escuta surge como um quadro de valores fundamentais que implicam, no concreto da vida, aqueles que livremente a eles aderem e, pela Promessa, se comprometem a solenemente a respeitá-los .

A Lei do Escuta apresenta-se, em primeiro lugar, como um espaço de educação a valores que permanecem como referência para todas as idades, ao longo do tempo e para além das diversidades culturais. Baden-Powell, ao desenvolver o conteúdo de cada um dos artigos , procura sobretudo apresentá-lo de uma forma positiva como um espaço onde, na liberdade, cada um encontra um caminho de felicidade e de humanização, e não através de coisas complicadas, mas de valores que entram na vida quotidiana de cada escuteiro. É como que um quadro imutável de valores que dizem respeito à vida concreta de todos os escuteiros de todos os tempos, e que se condensa numa «moral do serviço e do amor» ou «moral da felicidade», que orientam para o bem comum.
 Uma primeira linha formativa decorrente deste decálogo é, portanto, a dimensão dos valores, que encontram nos «valores do Reino» não só um aprofundamento a nível de conteúdos, mas também, a nível existencial, uma perspectiva de compromisso com a sua actualização na vida concreta dos escuteiros cristãos.

Por outro lado, a definição desta Lei do Escuta tem na base uma visão antropológica na qual todos os homens «têm dentro de si intuições inatas que o orientam e o ajudam a compreender que determinadas formas de vida devem ser procuradas, e o que está em oposição a elas deve ser evitado. Pode-se considerar portanto essas regras, uma lei natural, lei essa que Deus estabeleceu em nós». Por isso, a Lei, aponta também para uma responsabilidade ética como lugar de encontro com Deus, além de abrir um espaço formativo na relação que cada um é chamado a ter com este Deus que, sendo Criador, é também Aquele que quer estabelecer uma aliança com o seu povo: é uma «possibilidade de ensaiar a adesão ao Deus da aliança e ao compromisso ético dela decorrente».

Encontramos aqui, portanto, um espaço privilegiado para percorrer algumas das principais etapas da história da Salvação. De facto, a categoria da aliança desempenha um papel fundamental ao longo de todo o Antigo Testamento, sobretudo no êxodo do Povo de Israel e consequente celebração da aliança e entrega da Lei a Moisés no monte Sinai , assim como no Novo Testamento onde se concretiza uma nova aliança em Jesus Cristo .
A questão da responsabilidade ética deverá ajudar os escuteiros a fazer essa passagem «do valor ético da Lei à descoberta que o garante último da Lei universal e igual para todos e que tem como objectivo final a grande Paz e Justiça, não pode ser senão Deus, o criador», dando uma possibilidade de uma aproximação a várias temáticas fundamentais do Evangelho, como a questão da unidade íntima entre o amor a Deus e aos outros, como é apresentado por Jesus no Evangelho, o primado da misericórdia de Deus em relação à justificação por meio das obras, a apresentação de um Deus que é o garante do respeito que cada um deve ter ao seu semelhante, ou mesmo o centrar da atenção na obra redentora de Jesus Cristo que liberta o homem do seu pecado.

Finalmente, temos aqui também a possibilidade para, por uma outra perspectiva, também ela fundamental, fazer o percurso que parte do encontro com Deus para uma responsabilidade ética perante a vida. Da intimidade com Deus nasce a certeza que Ele não se substitui ao homem, que «a realização de si mesmo não é dada de modo mágico; consegue-se com resolução e esforço. É pois chamada em causa a responsabilidade pessoal». A Lei do Escuta pode ser lida nesta perspectiva do resultado ético que advém de um encontro pessoal com Deus. Do encontro nasce uma resposta que é empenho prático: «a moralidade crente mais que a razão compromete a existência. É livre e imprevisível resposta a um apelo totalmente livre e imprevisível.

Por isso, compreendendo o comportamento moral numa linha de relação com Deus, e de resposta numa fé que se torna vida, este é um dos elementos significativos a ter em conta numa avaliação do desenvolvimento integral dos escuteiros, e também do seu crescimento religioso.

O caminho de formação do escuteiro é marcado por momentos celebrativos, entre os quais o mais importante é o da Promessa. Neste momento, após toda uma fase de formação, o escuteiro celebra a entrada no grupo, e pode usar as insígnias próprias de um escuteiro.

Se ao longo do caminho formativo se vai dando este contacto progressivo com os ideais escutistas, e nomeadamente com a proposta da Lei do Escuta, agora é o momento de expressar o seu desejo em assumir essa Lei como um estilo de vida próprio. A Promessa «é um instrumento pedagógico para alcançar, pouco a pouco, um novo modo de ser, para percorrer o caminho que leve os nossos passos de construtores de um Homem Novo» . É um acto pessoal, de opção individual de alguém que quer ser escuteiro, mas também comunitário, de uma comunidade que acolhe aquele que dá provas de querer fazer parte desse grupo. Assume, por isso uma perspectiva iniciática que de alguma forma o relaciona com uma iniciação cristã. E, de facto, «é preciso não ter medo de relacionar a Promessa com a graça do baptismo que, precisamente, se invoca neste momento solene. Para um escuteiro, uma verdadeira promessa não pode ser outra coisa senão uma tomada de consciência e uma reafirmação de que pertence a Cristo». Por isso, a Promessa tem sempre um significado religioso. Ela é um compromisso pessoal assumido na comunidade escutista, diante de Deus: «Prometo, pela minha honra e com a graça de Deus», diz o texto da Promessa, num apelo directo a Deus para que ajude a manter a fidelidade aos compromissos livremente assumidos.

Concluindo, posso então afirmar que este primeiro elemento próprio da metodologia escutista oferece um leque diversificado de possibilidades de educação para a fé, nas suas componentes doutrinal, celebrativo e de compromisso na vida. De um aprofundamento dos valores do Reino, a um conhecimento das etapas de uma progressiva revelação do Deus da aliança, da responsabilidade ética como lugar de encontro com Deus, e do compromisso ético resultante da fé no Deus de Jesus Cristo, assim como a possibilidade de celebrar este encontro de liberdades na Promessa que se faz «com a graça de Deus».


Manuel Kiaku Diani.
Chefe da VIª Secção